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5 de novembro de 2013

A mana mais velha

Pergunta constantemente se a mana ainda não sabe fazer isto (e faz uma pirueta) ou isto (e levanta uma perna) e diz que ela é que vai ensinar a mana a fazer isso tudo - e outras coisas incríveis como estalar os dedos. Perguntava constantemente quando é que a mana nascia, mas agora já percebe que está quase e repete as palavras que tem guardadas para ela - a bebé - "não chora, não chora". Diz que é ela quem lhe vai dar o biberão, pois ainda não percebeu muito bem a história da maminha - que coisa esquisita... Colocou, generosamente, uns bonecos seus no berço da mana, para ela não se sentir sozinha, e nem perguntou porque é que a mana vai ficar no quarto dos pais e não no dela (a seu tempo!). Está ansiosa por fazer a festa dos 3 anos e até deixa a mana ir à festa. Uma querida (entretanto, decidiu que a mamã só vai se se portar bem, a mãe, não ela). 
Enquanto a mana não nasce (e já lá vão 38 semanas e meia, quem diria?), vamos passeando ainda só a três e desfrutando dos momentos de exclusividade, exclusividade dela e exclusividade nossa, enquanto duram. Foi um prazer tê-la só para nós durante estes quase 3 anos. E será um prazer dar-lhe uma irmãzinha para o resto da sua vida. Dizem-me que aí tudo fará ainda mais sentido. 
Mas, se já faz?











Este podia muito bem ser o último post antes de as nossas vidas ficarem um bocadinho mais cheias.

10 de outubro de 2013

Mãe ranhosa

A minha filha recebeu dois convites para festas de anos de meninos da creche que eu não conheço, num fim-de-semana que se adivinha solarengo e propício ao dolce far niente e em que não dava mesmo jeito nenhum ir para uma festa de putos, com cujos pais sou capaz de nunca ter trocado mais do que duas palavras, reunião de pais incluída.
Para resolver a coisa, mostrar-lhe como não é assim muito importante ir às festas, resolvi sondá-la quanto ao grau de familiaridade com os respectivos colegas.

- Quem é o C.? Não é da tua sala, pois não?
- Não.
- É de que sala?
- Não sei.
- Mas tu conhece-lo, sabes quem é?
- Sim.
- És amiga dele?
- Não. Sou amiga da .... (e enumera as 3 amigas preferidas), mas do C. não.

Resolvido. Venha o próximo.

- E a M.? É da tua sala?
- Sim, ela deu-me um chupa no outro dia.
- Ai deu? Porquê?
- Porque fez anos e fez uma festa na escola.
- Então já fez festa? Que bom saber isso!

(Isto faz de mim uma mãe ranhosa?)

3 de outubro de 2013

Todos os nomes - mesmo todos

Já ouvi muitas histórias de malta que escolhe o nome dos filhos só depois de eles nascerem. Nunca pensei que, chegada às 34 semanas, ainda não tivesse esta questão resolvida, mas é a mais pura das realidades. Não é que eu não tenha um nome escolhido e preferido, porque já toda a gente está farta de saber qual é. O pior tem sido acertar num nome de que ambos os progenitores gostem.

Para me inspirar, há tempos saquei uma app com todos os nomes permitidos em 2010 (a app chama-se SobreNome Optimus) e que me possibilita marcar os favoritos e criar, assim, a própria minha lista Top 19 (o desespero já é grande). O pior é que, tendo já percebido que tenho mesmo de tirar o cavalinho da chuva com Alice, não há nome nenhum que me encha as medidas. Até mesmo os nomes que tinha como segunda e terceira opções (Clara e Rosa) me parecem agora absolutamente desinteressantes e descontextualizados. O outro nome a que já me tinha vindo a habituar, Rita, foi recentemente posto fora de combate e sinto que, às 34 semanas, voltámos à estaca zero.

De modos que voltei a pegar na app e a refazer a minha lista. Daí resultaram 19 nomes favoritos, dos quais constam coisas esquisitas como Selma, que juro que não sei como lá foram parar. Mas é claro que me diverti imenso a percorrer a lista. Encontrei nomes que, de tão descabidos, chegam a ser engraçados e, se formos a ver bem, a pessoa é que faz o nome e não há nome nenhum a que não nos habituemos! Por exemplo, quem não gostaria de ter uma filha chamada Agonia (nas suas imensas variantes tipo Carla da ou Maria da), Anália ou Auxília, a Samaritana? Coisas impronunciáveis também estão no cardápio como Basilissa, Carsta ou Lízie. Depois há o grupo das Marias-Vão-Com-Todos, como Libertária e Marquesa (aquela das massagens). Curiosamente, Marilú não consta da lista, vá se lá perceber porquê.
Há ainda o rol das meninas que se adivinham muito viajadas, como Ásia, Argentina, Índia e Oceana, ou aquelas cujos pais querem fazer render desde o berço e que lhes dão nomes de marcas, pensando eles ganhar alguma compensação monetária com isso, como Mimosa ou Séfora (como sugeriu um amigo meu há pouco tempo, Milupa também havia de ficar bem). Os abomináveis nomes transferidos a papel químico do brasileiro, como Vanderleia e Iracema, do alemão, como Ingeborga, do hebraico, como Hadassa, ou do raio-que-o-parta, como Quaiela, já me aumentam a azia. 

Os exemplos são muitos e podia estar aqui o dia todo, mas o tempo urge e, por isso, prefiro dedicar-me intensamente à minha lista sensaborona de nomes comuns e tentar ter uma epifania, ou fazer o pai ter uma epifania, com um nome qualquer legível e pronunciável à primeira, preferencialmente com quatro ou cinco letras, que não seja demasiado linha-de-Cascais (coisas como Concha estão fora de questão) e que fique assim a meio da lista das presenças, que isto há que ser prático.

23 de setembro de 2013

E, no fim do Verão, ela nadou

Não sei por que é que, de todos os miliários da vida de uma criança (primeiro dente aos seis meses, primeiros passos aos 13, primeiro dia de escola), não se inclui a primeira vez em que uma criança nada sozinha no mar com braçadeiras. Não falo do dia em que a criança aprende a nadar efectivamente, sem quaisquer ajudas. É óbvio, e acho que ninguém nega, que esse é um dia memorável (quem não se lembra ainda do dia em que aprendeu a nadar?). Falo do dia em que uma criança consegue nadar sozinha com braçadeiras em pleno mar. É um passo enorme, um acto de coragem inegável, especialmente se estamos a falar de uma criança que ainda não fez 3 anos e ainda no início do Verão morria de medo de ir a banhos e agora já consegue largar a mão da mãe ou do pai e avançar dez metros para "mar alto". Nunca ninguém fala disso, nunca ninguém se lembra (eu não me lembro do dia em que nadei sozinha pela primeira vez com bóia ou braçadeira...), nunca ninguém dá a importância devida a esse marco, só porque é com braçadeiras e não é realmente nadar. Pff para vocês que só aprenderam a nadar aos 8 anos.

A felicidade estampada no rosto dela ao ir do pai para a mãe e da mãe para o pai, a auto-estima que florescia e o nosso orgulho por termos conseguido proporcionar-lhe tamanha sensação são sentimentos absolutamente impagáveis. Inestimáveis. Inexcedíveis. Não trocaríamos este fim-de-semana que passou por programa nenhum que nos trouxesse qualquer outro tipo de felicidade efémera. A nossa filha cresceu mais um bocadinho, nós estávamos lá para ver e se alguém me diz que qualquer criança de 2 anos consegue nadar com braçadeiras leva já com uma nas trombas!

9 de setembro de 2013

É só estilo

Hora de deitar. Lemos um livro, invariavelmente Anita viaja de comboio...
- Mamã, o papá da Anita é um estiloso.
- Ai é? (contenho o riso). Pois, está de fato e gravata, está mesmo com muito estilo.
Continuamos a história. Na página seguinte, aparece a mãe da Anita. Eu comento:
- A mamã da Anita também é uma estilosa, não é?
- Não. É uma princesa.
- Ah, pronto... (contenho o riso).
Continuamos a história. Cinco segundos depois, põe a mão na minha cara, vira-me a cabeça para ela e diz:
- Mamã, tu também és uma estilosa!

Não sei quem lhe ensinou esta palavra, mas lá que a sabe aplicar, lá isso é inegável!

16 de agosto de 2013

O dia em que a pirralha disse "fixe" pela primeira vez

Foi ao jantar, estávamos num jogo parvo a ver se ela comia a quinta colher de sopa, eu fiz qualquer coisa que deve ter sido engraçada e ela, do alto dos seus 2 anos e 8 meses, fechou a mão, espetou o polegar, esticou o braço e disse:
- Boa! Fixe, mamã!
...

Ainda não tenho de me preocupar, pois não?



fixe |ch| 
(alteração de fixo
adj. 2 g.
1. [Portugal, Informal]  Que agrada ou tem qualidades positivas (ex.: o livro é muito fixe). = BOM, PORREIRO
2. [Portugal, Informal]  Que inspira simpatia (ex.: os teus colegas são fixes). =SIMPÁTICO
3. [Popular]  Que é fixo, firme ou seguro.
4. [Brasil]  Compacto; inteiriço; maciço.
interj.
5. [Portugal, Informal]  Usa-se para exprimir satisfação ou consentimento (ex.: Fixe, eles já chegaram.).
s. m.
6. Retângulo de madeira ou ferro, sobre rodas, para sustentar a máquina do comboio.

in Priberam.



14 de agosto de 2013

Diálogo às 27 semanas

- Mamã, a minha mana ainda não saiu cá para fora?
- Não, ainda não.
- Sai amanhã?
- Não.
- E domingo?
- Também não.
- Oh.

8 de agosto de 2013

Deixar as crianças ser crianças

Este domingo juntámos uns quantos amigos e respectiva criançada para uma sardinhada. Depois de almoço assentámos arraiais no terraço de um deles e as crianças foram dar um mergulho na piscina enquanto as mães vigiavam e os pais iam passando do vinho para o licor Beirão (...). Às tantas, começou a ficar frio e as meninas começaram a sair da piscina. Já depois de seca e vestida, depois de ter parado de tremer e de os lábios terem ganho alguma cor, a Inês quis voltar para dentro do tanque em imitação de uma das outras crianças. Opus-me fortemente, com medo que se constipasse, mas o pai, naquela atitude laissez faire laissez passer tão típica de quem já passou do licor Beirão para uísque, encolheu os ombros e fez-me o sinal de "deixa lá ir a miúda, pá". Meio contrariada, lá a despi.

Então o que aconteceu? A Inês, normalmente medrosa e pouco arisca em coisas aquáticas, pôs as braçadeiras e começou a nadar sozinha, ou a esboçar aquilo que mais tarde será nadar, a mergulhar a cabeça na água depois de gritar "Mamã, olha!" e a saltar e chapinhar, destemida, com um sorriso de orelha a orelha e uma felicidade que lhe saía da garganta às golfadas.

Acabou por só sair da água quando quis, não se constipou e eu senti-me um pouco envergonhada porque tinha tido uma atitude parecida à daquelas mães chatas e galinhas que costumo ouvir no parque a apregoar de 20 em 20 segundos: "Vê lá, não caias!", "Veste o casaco, não te constipes!", "Não subas isso que sujas as calças!", "Não se mexe na areia!" e irra, que tanto me irritam.

Se eu nunca a tivesse deixado voltar à água, supostamente para não se constipar, ela nunca teria tido a oportunidade de "nadar" e mergulhar sozinha sem estar agarrada às pernas dos pais e sem choramingar de cada vez que lhe escorria água pela cara. Não tinha, também, tido aquele momento de profunda felicidade que lhe ficaria marcado na memória caso fosse mais velha. Eu teria levado a minha avante, sim, teria podido sentar-me confortavelmente a comer petiscos sem estar preocupada em antecipar possíveis afogamentos, mas teria provavelmente impedido a minha filha de uma nova experiência. E essa possibilidade deixa-me muito triste.


Espero sinceramente que me sirva de lição para o futuro. Não quero ser daquelas mães chatas e rabugentas que querem os filhos quietos e sentadinhos para não amarrotar os calções. Quero ser daquelas mães que deixam os filhos mexer na lama para inspeccionar a vida das minhocas e chapinhar em poças de água e espalhar as tintas no chão da sala e subir às árvores e correr sem medo de cair e comer framboesas à mão sem medo de sujar o vestido e apanhar grilos para trazer para casa (humm, ainda tenho de pensar bem nesta). Quero ensinar-lhe a sentir-se livre. Mas, para isso, tenho de me libertar primeiro dos preconceitos parvos das nódoas que não saem e da febre que pode atacar. É preciso ter bom-senso e deixá-los ser crianças. Afinal, eles não sabem ser outra coisa.

25 de julho de 2013

Poizé

Sempre que a minha filha contra-argumenta comigo com um daqueles argumentos que arrasam pelo inesperável (são 9 da noite e eu digo está na hora de ir dormir e ela responde mas ainda é de dia e eu olho pela janela e constato de facto ainda é de dia e penso como raio é que lhe vou explicar isto do horário de verão), se põe a brincar comigo ao jogo da cara séria e percebe perfeitamente que se se rir perde (e perde sempre, claro), ou responde a uma afirmação com um "Poizé!", como nós dizemos, "poizé" e não "pois é", com ponto de exclamação e tudo, e um aceno de cabeça e arquear de sobrancelhas como fazem os adultos perante uma verdade irrefutável ou, ainda, se esquece do que ia a dizer, põe a mão na cabeça e murmura "ai, esqueci-me", sou sempre mas sempre tentada a espetar-lhe com um teste de QI à frente, mas depois penso que sou apenas mais uma mãe babada e que todos os pais acham que os filhos são os mais bonitos e inteligentes do mundo e remeto-me humildemente para a bazófia blogosferiana. Poizé.

18 de julho de 2013

Entreter, mas longe do ecrã

Há uns tempos dei com um livro sobre como arranjar tempo para ter uma profissão freelance quando se é mãe e se cuida dos rebentos em casa. Chama-se "Mom, Inc." e falam sobre ele aqui. Não o comprei na altura nem acho que faça sentido no meu caso e lembro-me de ter pensado que era um pouco disparatado haver necessidade de escrever um livro sobre isto. Quem quer ter uma profissão, que ponha os filhos na creche, ora. Mas compreendo que, em início de carreira para quem está a tomar conta dos filhos há muito tempo (a realidade americana é algo diferente da nossa), se opte por não aumentar as despesas, p. ex., com o infantário, antes de o negócio começar a dar frutos. Logo, há que estabelecer regras e rotinas para conseguir trabalhar com a criançada em casa.

Esta semana fiquei em casa com a minha filha com varicela. Não tinha propriamente trabalho para fazer, tirando as fantásticas tarefas da lida da casa, mas mesmo assim percebi que requer bastante criatividade e paciência entreter uma criança de 2 anos o dia todo sem sair de casa (entreter bebés é outra coisa completamente diferente). Se ela pudesse sair de casa, seria fácil: íamos ao parque, íamos passear, íamos almoçar com o pai ou mesmo ao supermercado. Mas atacada como ela ficou não seria nada aconselhável sair de casa nos primeiros dias e, depois de passar a febre, a miúda estava com toda a energia típica de uma criança de tenra idade e era preciso canalizá-la para algum lado. 


Nos dois primeiros dias de convalescença, deixámo-la ver todos os bonecos e filmes que quis no iPad e foi com consternação que reparámos que, deixando-a, ela é capaz de ficar o dia todo agarrada ao ecrã. Mas assim que começou a ficar mais bem-disposta, tratei de limitar o iPad para situações concretas em que precisava de a ter sossegada ao pé de mim, como quando queria tomar duche ou fazer o almoço.
No resto do tempo, eu e a cachopa andámos sempre a fazer coisas: pintámos no papel, pintámos em madeira, pintámos conchinhas e pedras do mar, fizemos colagens, demos banho às bonecas, brincámos às compras com dinheiro de brincar que encontrei como por milagre e lemos todas as histórias que ela quis. Mas, fora isso e os cuidados diários a ter com a varicela (banhos com amigo de milho (!), creme nas borbulhas 53 vezes por dia, ver a febre, impedir que se coce, etc. etc. etc.), eu não fiz mais nada. Se tivesse de trabalhar, teria de aproveitar a hora da sesta (mas porque não aproveitar e dormir com ela??). Confesso que fiquei mais cansada do que se tivesse sido um dia normal de trabalho/creche. Especialmente porque a miúda já argumenta, já negoceia, já resmunga e refila, desafia-nos sempre que pode e andou com tão pouco apetite que era um esforço meter-lhe qualquer coisa à boca.
É sempre nestas alturas em que sinto a máxima admiração por todas as mães solteiras e todas as stay-at-home-moms que têm de ter diariamente doses industriais de paciência e um sistema de organização de tarefas e gestão do tempo que a mim me parece obra de Super Mulher. Respect!

(Cinco dias depois voltei ao trabalho, ela foi para a avó acabar de convalescer e eu tento não me sentir demasiado contente por me poder deitar no sofá a ler um livro descansada às seis da tarde...)

15 de julho de 2013

Aquela nostalgia de ter um bebé

Tivemos a ideia de (copiar a ideia original de uns amigos e) fazer um álbum de fotografias da primogénita que abrangesse os seus primeiros dois anos de vida, incluindo o período de gestação, o parto, o hospital, as primeiras semana de vida, os marcos mais importantes, até aos dias de hoje, para ela perceber a viagem que a mana está a fazer e o que lhe vai acontecer, tal como aconteceu com ela.
 
Ao percorrer os milhentos álbuns de fotografias digitais que temos dela para escolher as fotos que melhor retratam o pretendido, sinto uma nostalgia tal dos seus tempos de bebé que, se não estivesse já grávida, seria este o momento em que decidiria ter mais um filho.


Só espero que isto não me aconteça muitas vezes.

5 de julho de 2013

No mundo tramado das mulheres

Ora, então, temos mais uma menina. A parte do reaproveitamento de roupas, brinquedos e mobília está facilitada, assim como está resolvida a questão logística do quarto e do tipo de camas que vamos comprar agora que a primogénita está prestes a ser promovida para uma cama de crescido.
Por outro lado, confesso que, quando o ecografista me perguntou se conseguia ver, estive tanto tempo à procura da pilinha, que quando respondi "É uma menina", foi a medo. É que a pilinha podia estar escondida! Mas não estava, porque não havia pilinha ("É uma rapariga! Então mas não se vê logo? Ai, ai, ai...). E se é verdade que fiquei contente à mesma, especialmente por saber que ela tem todos os dedinhos dos pés no sítio (o que interessa é vir com saúde, já diz a minha avó!), também é verdade que ficava muito contente se fosse um menino. Não é só o desejo do desconhecido. Já sei o que é ter uma menina, já tenho a quem pôr lacinhos e vestidinhos e com quem brincar aos Pin y Pons e a quem explicar daqui a uns anos o que é o período. Já agora que vou ter outro, gostava de saber o que é ter um menino. 
Mas vai muito para lá da curiosidade básica. Provavelmente, isto vai parecer uma grande estupidez, mas afigura-se-me mais fácil conseguir multiplicar o amor por duas criaturas de sexos diferentes. É como se, por serem menino e menina, tivessem de ser naturalmente diferentes (e não estou só a falar dos órgãos reprodutores) e fosse mais fácil e justo amá-los com equidade, apesar das suas características tão "diferentes". Além de que a intrínseca competição feminina que começa logo inconscientemente na gravidez com o mito "é menina se a mãe ficar feia grávida, pois a filha está a roubar-lhe a beleza" desempenha um papel tramado.
Eu sei, isto é um grande disparate. Mas venho de uma família de mulheres que tiveram filhas mulheres que tiveram filhas mulheres, cuja educação foi, em todas as gerações, marcada por resquícios de uma educação matriarcal menos positiva e que acabou por culminar em irmãs que deixaram de falar com irmãs e mães que deixaram de falar com filhas e filhas que deixaram de falar com mães (são coisas diferentes!) e que, consequentemente, sempre foram mais chegadas aos pais, aos maridos, ao avô, ao gato, desde que fosse do sexo oposto. 
Por isso, acho que sempre tive um pânico secreto de ter só filhas porque, pensava eu, inevitavelmente a nossa relação iria ser conflituosa, difícil ou chocante. Afinal está-nos nos genes e só um rapaz teria a capacidade de quebrar a corrente. E acalmar a histeria (imaginem uma casa só de filhas antes de um concerto de Justin Bieber... credo...).
Mas a verdade é que a minha ainda primogénita filha me adora. Ainda me prefere a mim, é ainda a mim que ela chama à noite, é ainda comigo que ela prefere estar. O pai sabe disto, admite isto, não há muito que ele possa fazer (porque também sabe que não vai ser sempre assim), mas até gosta que assim seja porque sabe que esta ainda preferência em muito ameniza as minhas inseguranças de mãe. E mesmo que eu lhe ralhe mais bruscamente um dia, ou lhe dê uma palmada a sério, como já aconteceu uma vez, mas não é coisa para repetir muito, ela sabe que, no quadro geral, eu não sou má mãe, não sou cruel, injusta, ressabiada, controladora, dependente. Ela sabe. Eu sei. Por enquanto. O meu problema é como serei com duas daqui a uns anos, como o modo como eu sou com elas, em conjunto e individualmente, terá repercussões na sua relação uma com a outra, como me conseguirei manter justa e fiel aos meus princípios quando me começar a identificar mais com uma do que com outra, porque uma é mais dócil comigo, mas a outra é mais parecida comigo. 
Oh, tarefa ingrata. É claro que não estou só. O pai, vindo de uma background completamente diferente, ajuda-me e vai continuar a ajudar-me a ser a mãe que quero ser e não a cingir-me ao único molde de mãe que conheço. E eu vou tentando melhorar a cada dia que passa e não ficar demasiado presa às expectativas. 
Cinjamo-nos, primeiro, à complexa tarefa de escolher o nome, que já não está a ser nada fácil. Será que não é possível esperar pelo parto, olhar para a cara dela e dizer logo "Olha, afinal tem mesmo cara é de Pancrácia!"? O assunto ficava logo arrumado, que mania esta de complicar...

1 de julho de 2013

Nova etapa

Se isto fosse um baby blog cheio de smileys e coraçõezinhos, eu agora enchia as outras mães de inveja ao dizer que ontem à noite a minha filha, do alto da maturidade dos seus dois anos, seis meses e uma semana, me pediu para dormir a noite toda sem fralda e foi um autêntico sucesso! Mas como isto não é um baby blog, vou ali só comprar mais resguardos para a cama e rezar para que ela não molhe os lençóis até aos 8 anos, como muita boa gente que conheço...

25 de junho de 2013

Benefícios das aulas de Yoga no âmbito doméstico

E o momento What the Fuck? estampado na cara de assombro da minha filha quando, para a acalmar no auge de uma birra diabólica, me sentei com ela e lhe disse "Inspira! Expira! Vá, tu consegues! Assim, inspira, expira! Também podes acompanhar com Oommmm..."
Juro que lhe li no rosto "A mamã pifou de vez", com direito a sobrolho franzido e tudo, mas o que interessa é que resultou. Ficou tão pasmada a olhar para mim, que se esqueceu de continuar a chorar.

25 de maio de 2013

Para a próxima, sem gato

Há coisa de um ano, uma amiga contava-me como a sua filha, na altura de dois anos e meio, já fazia companhia quando iam passear as duas e, por exemplo, se sentavam numa esplanada a comer um gelado.
Não duvidando que assim fosse, não conseguia perceber bem até que ponto é que uma criança tão pequena podia fazer companhia mais do que nos obrigar a estar constantemente atentos aos seus movimentos. "Mas vocês conversam?", perguntava eu, incrédula, "E falam sobre o quê?" E a minha amiga ia-me relatando as conversas básicas que tinha com a filha, sobre o gelado que estava tão bom, sobre o menino que estava a chorar duas mesas ao lado, sobre os pombos que vinham comer as migalhas, sobre o estado do país. Ok, esta última era a brincar.

Não há muito tempo voltei a lembrar-me desta conversa. Porque comecei a sentir isso mesmo, que a minha filha agora, com quase dois anos e meio, me presta mais companhia do que me faz andar atrás dela quando vamos passear. Se nos sentarmos as duas numa mesa de café a lanchar ou simplesmente a comer um gelado (um Corneto inteiro para cada uma - sim, sou uma má mãe!), é tão agradável que eu desejo, por instantes, que o momento se prolongue indefinidamente. Costumamos falar sobre o gelado que está tão bom, sobre o que se vai passando ao nosso redor, sobre o que vamos fazer a seguir e o que já fizemos, e, invariavelmente, acabamos com uma série de disparates que envolvem fotografias, troca de gelados, bocas lambuzadas e barrigas de abade.

Como hoje, na Feira do Livro. Foram mais de quatro horas sempre muito cúmplices e divertidas, com direito a ida ao parque porque chegámos cedo de mais, conto infantil da Formiga Juju, compra de livros da Miffy e da Anita, almoço e gelado. Até consegui comprar mais um livro para mim (ai, ai...). E, se não fosse o raio do gato de  peluche de um metro e oitenta que se veio meter com ela logo no início, a coisa teria corrido muito melhor...

16 de maio de 2013

O lobo mau e outras histórias




Desde que comecei a ler histórias à pequena à hora de deitar, que me preocupo em "ler-lhe" só aquilo que interessa. Ou seja, as histórias infelizes que apareceram lá por casa, que ela é que escolhe para ler, que eu nunca recuso (mas devia!) e que ainda ninguém se lembrou de considerar como altamente nocivas para menores de 8 anos, como o Pequeno Polegar (história de uns pais pobres que, por não terem dinheiro, decidem abandonar os seus 7 filhos na floresta não uma, mas duas vezes!) ou o Capuchinho Vermelho (história de uma menina que, por ter desobedecido às ordens da mãe para não ir pela floresta, acaba perseguida por um lobo que a quer comer e vê a sua avó ser sacada da barriga do dito - macabro, para dizer pouco!), têm um desenlace completamente diferente quando lidas por mim.
Ou tinham.

Até há bem pouco tempo, o lobo não comia a avó, estava era atrás dos queques de laranja que a Capuchinho levava no cesto e tinha combinado com a avó, de quem era amicíssimo, pregar um valente susto à Capuchinho, mas na mais inocente das brincadeiras. A avó estava escondida no pomar por trás da casa a rir-se à socapa e o caçador apareceu ali por um mero acaso, não sendo caçador, coisa nenhuma, mas um inocente observador de pássaros.
Quanto ao Pequeno Polegar, os irmãos tinham decidido iniciar, sozinhos, uma excursão pelo bosque à procura de um tesouro escondido no palácio do gigante para ajudarem os pais pobres. Tão simples quanto isto.

Mas alguém se lembrou de lhe ler a história do Capuchinho toda, na íntegra, sem tirar nem pôr, tal como vem no livro, a pensar que a miúda não percebe ou que as crianças são imunes à crueldade da selecção natural (ou não tão natural assim). De modos que, vai disto, um dia a pequena diz-me: "Não, mamã, o lobo comeu a avó."
...

A partir daí, depois de me ter gelado o sangue no corpo, não tive outro remédio senão ler a história original, poupando-a apenas aos pormenores mais sádicos. Dar um tiro no lobo mau?? Abrir-lhe a barriga? Santo deus. Já agora, não querem já pôr miúdos de 2 anos a ver o Saw?

Mas agora a cachopa não faz senão falar do lobo mau. É o lobo mau que está no parque escondido atrás da árvore, é o lobo mau que está na cozinha, debaixo da toalha da mesa, é o lobo mau que lhe vem tirar a chucha, fora todas as vezes que o vê e não me diz. 
Não lhe pressinto nenhum medo nas suas visões, parece-me, antes, que é algo que a diverte. De qualquer maneira, tento sempre amenizar-lhe futuros medos quando lhe digo que temos de dar maçãs e cenouras ao lobo mau (e nunca coelhos ou ovelhas, credo) porque ele só tem fome e não faz mal nenhum. Mas o tempo dos pesadelos aproxima-se. E cheira-me que já sei qual será o primeiro protagonista.

Agora que penso nisto friamente, acho que o melhor é dar sumiço a certos e determinados livros e chicotear-me cem vezes por ainda não o ter feito. A miúda ainda é muito novinha para alimentar o imaginário com monstros e bichos maus. Ele já tem medo de moscas, por deus! Moscas...

15 de maio de 2013

Quem diz a verdade...

Depois de um primeiro trimestre de gravidez completamente desinteressada das costuras, lá recuperei a vontade de costurar umas coisinhas para a descendência. Comecei por umas botinhas de bebé (imbuída de espírito maternal depois de ter visto o segundo aos pulos no ventre), mas que não me correram bem e estão à espera de dias melhores (ou do dia em que vou descobrir como enfiar uma coisa tão pequena debaixo do pé calcador - diz que é possível!).
Optei, então, por repetir terreno conhecido e fazer saias e vestidos básicos-mais-básico-não-há para a primogénita. O primeiro correu bem, vai daí, resolvi dar-lhe com força e repescar as capulanas que trouxe de Moçambique nas últimas férias.
Feita a "saia dos elefantes" que ela adorou mas que não lhe serviu (...), resolvi fazer-lhe outra saia, desta vez com as medidas certas. Não sei o que aconteceu, mas a saia passou de saia a blusa por um acaso inexplicável, com fita para o cabelo a condizer. No dia seguinte - hoje - mostrei-lhe, para a primeira prova, convencida de que ia gostar só porque o tecido tinha elefantes.
Quando lhe coloquei a fita na cabeça, foi-se ver ao espelho e saiu-se com um:
- Mamã, isto é do cozinheiro!
(Oi?)
E depois fez um esgar de dor para que lhe tirasse a fita.
Perdida por cem, perdida por mil, vamos lá experimentar a blusa.
Assim que a viu, a reacção não podia ser mais esclarecedora:
- Mamã, é feio!

E eu, literalmente com cara de cu, ainda ouvi o pai dela a rir no quarto e a vir a correr desmentir, por piedade ou sinceridade, não interessa agora, antes que me desse uma crise de choro de grávida. Não deu, mas, depois de pensar em colocar aqui uma foto dos espécimes, percebo que, depois disto, a minha auto-estima ainda não está completamente refeita.

25 de abril de 2013

Ecografias caseiras

- Mamã, quero ver o bebé.
- Meu amor, não dá para ver assim. O bebé está dentro da barriga e é preciso uma máquina para o ver e fazer assim e assim (e vou imitando o médico da ecografia e fingindo que estou a tirar uma fotografia à barriga).
Depois de algumas palhaçadas a fingir que estamos a tirar fotos à barriga uma da outra com uma máquina imaginária, ela vira-se e diz, com uma cara muito séria:
- Mamã, eu vou comprar uma mánica.

Complicar, para quê?

3 de abril de 2013

De barriga cheia

O relato que se segue vai, provavelmente, fazer-me perder alguns dos seguidores que me adicionaram ultimamente, mas a alegria que eu e a minha filha sentimos ontem ao jantar foi tanta que perder seguidores é coisa que pouco me importará em comparação.

Começo por dizer que não me orgulho disto, mas que também não é caso para a Assistência Social me vir pedir explicações, posto o que ontem à noite tivemos pizza para o jantar! Pizza e gelado, como ela repetiu vezes sem conta. Mas tenho para mim que dias não são dias e em breve o cozinheiro salvador está a chegar para nos livrar do mal das refeições prontas.

A tarde estava solarenga e tanto eu como ela sentimos necessidade de aproveitar o sol que não molha os baloiços e o sol que nos faz querer sentar num banquinho de olhos fechados e o sol que nos leva a vaguear pelas ruas atarefadas de Algés atentas a tudo e a nada. Foi assim que, sendo quase oito da noite, mas quase ainda de dia, lembrei-me, distraída, que não tinha jantar para ela. Podia ter vindo para casa e ter feito qualquer coisa rápida, podia ter vindo para casa e ter feito qualquer coisa demorada enquanto lhe acalmava a fome com pão, mas acabei por telefonar e pedir a pizza mais simples que tivessem.

O delírio começou mal a pizza chegou. Como se fosse dia de festa, ela ria e escondia o riso como se fosse marotice, e depois de muito comer (era uma pizza individual que eu cortei em muitas fatias fininhas para parecer mais), houve uma de nós, não interessa agora quem!, que deixou escapar um arroto. Isso é que foi o fim da picada. Começámos as duas a fingir arrotos maiores do que o outro, com a língua de fora e os olhos revirados, e depois ríamos, ríamos, ríamos, e voltávamos a fingir arrotos, e ríamos, e ríamos, e ríamos, ríamos com prazer e ingenuidade até ficarmos as duas com soluços e a pizza começar a ficar fria, mas nós ríamos como se estivéssemos possuídas por um qualquer deus do riso, que depois ainda nos pôs a comparar as barrigas dilatadas do tanto que comêramos, e a fazer como os homens do campo, de perna aberta e barriga grande, e ela a prestar-se a tudo e a imitar-me e a fazer-me rir tanto que no fim só podíamos ter acabado abraçadas.

E é assim que se está a acabar o nosso girly time. Acho que nos divertimos e ganhámos as duas muito nas duas últimas semanas, mas o papá também já faz muita falta... Para fazer suminhos verdes e andar às cavalitas. Vá, anda, papá, anda.