18 de junho de 2012

Ou, como lhe chama o pai, Furacão


As pessoas com filhos acusam-se logo, quanto mais não seja para dizer "O meu também era assim". Foi por isso que soube que as meninas da loja não tinham filhos e que, assim que eu saí, devem ter suspirado de alívio por, de facto, assim ser.

Entrei na loja para lhe comprar uma t-shirt de emergência. Ainda não eram 4 da tarde e já lhe tinha trocado a roupa 3 vezes. Esgotado o meu stock "take away" e, uma vez mais, entornada meia garrafa de água corpo abaixo, a última coisa que eu queria era que, no meio daquilo tudo, ela se constipasse.
Se, até então, já estava no estado "furacão", assim que entrou na loja entrou no estado "Katrina". Não houve calças, t-shirts ou sapatos que não vieram ao chão. Até para cima da montra quis subir e escondia-se atrás (deitava abaixo) dos expositores. Eu, era ver-me a correr atrás dela e a dizer mil vezes "Não", tentando aparentar uma descontracção que não sentia e, no meio de tudo, ainda tentando escolher uma das t-shirts que a menina me ia pondo em cima do balcão. Acabei por escolher 4 porque o meu cérebro parou e riscou o disco... 

As pessoas que entravam riam-se, as meninas da loja achavam um piadão. Até àquele olhar do "que pestinha" e ao condescendente "deixe estar, nós arrumamos"... Não valia a pena eu dizer que ela não é sempre assim. Porque sempre que estamos com amigos ela é amplamente elogiada como uma bebé "tão calma e tranquila que dá gosto". Na verdade, não tinha de me justificar. E não me justifiquei. Continuei a minha odisseia de domingo, que o dia ainda ia só a meio.

Chegada a casa, ela dormindo estafada da excitação do dia, consegui finalmente tomar banho e sentar-me no sofá durante 10 míseros minutos em que senti um misto de esgotamento nervoso e vontade de me autoflagelar. Na verdade, tudo tinha sido evitável. Toma lá para aprenderes que da próxima fazes melhor. E tudo não passa do resultado de 9 dias de single parenting que, não me venham com merdas, não é pêra doce quando se está habituado a dividir a atenção por dois. Numa altura em que ela começa a desafiar os limites e a perceber que a vida está cheia de coisas interessantes e proibidas que ela quer ver, sentir e comer, ou que o sofá é mais giro se der para se atirar dele abaixo, entre duas mil outras coisas que quem tem filhos sabe exactamente o que quero dizer, as minhas pseudo tentativas de gentle parenting começam a dar de si. Neste domingo, não só lhe mandei dois berros, como tive uma vontade louca de lhe dar uma valente palmada. Não dei, mas tive vontade. Pensamento que logo me envergonhou e me fez querer redimir-me e falar-lhe a seguir com a voz mais doce do mundo, a tentar explicar-lhe o porquê de não poder fazer aquilo, e a tentar contrariar o desejo de rematar com um "fazes o que eu te digo e acabou a conversa!". 

Não quero ser assim. Nós não batemos. Nós não gritamos. Nós tratamos o outro com respeito e avisamos sempre que vai acontecer alguma coisa. Vou-te pegar ao colo. Vou-te mudar a fralda. Vamos entrar no carro. Vou-te tirar a chucha. Vais fazer ó-ó.
Na verdade, nem sempre é assim. Mas é o que tento(amos) implementar a maior parte das vezes. Quando falha, porque falha, é porque não somos super pessoas, nem budas, nem gurus do attachment-helicopter-positive-slow-spiritual-unconditional parenting e mais porra nenhuma parenting.
Na verdade, apetece-me mandar todas estas teorias à merda, respirar fundo, e seguir o meu instinto. Toda a gente falha, toda a gente fraqueja. Há que aceitar, compreender o que nos conduziu até ao limite da paciência e, para a próxima, tentar evitar chegar lá. E respirar fundo, bem fundo. Porque, eventualmente, daqui a 10 minutos tudo passa e ela já se está a esconder nas minhas pernas cheia de vergonha de alguém e a precisar que eu a guie nesta vida tão tortuosa.

15 de junho de 2012

Dobrador de pessoas


E-mail ao Centro de Terminologia Europeu IATE, uma fonte que, lá por ter Europeu no nome, não quer dizer que seja fidedigna.

Dear Sirs,
The Portuguese Translation for the entry “parachute packer” [1567401], [en] is somewhat funny. If a parachute packer refers to a person skilled in stowing parachutes, is definitely not a “people packer” as implied in the offered translation “dobrador de pessoas”. I would suggest something like “pessoa responsável por dobrar paraquedas”.
Thank you for your time.
Best regards,

13 de junho de 2012

A Super Mulher também vai à bola?


Qual urso polar em hibernação, mas menos fofo e em igual perigo de extinção, assim é o meu gosto por futebol: acorda de 2 em 2 anos enquanto a Selecção não perde. (In)felizmente que a coisa não costuma durar muito. É que o pobre do coração não aguenta.
(Assim o diz o meu estado pré-enfarte do miocárdio durante aquele mítico jogo dos penaltis de Portugal-Inglaterra no Euro 2004 e o jogo dos 16 cartões amarelos com a Holanda e no Mundial 2006. Juro, estive assim para cair para o lado de nervos.)

E, já que falamos em futebol, por causa desta brincadeira no Euro, o pai da minha filha tem estado em  terras polacas e ucranianas a ver a bola e só voltará daqui a 6 dias. Para além destes 11 dias fora (e não os 10 dias que me vendeu), pouco depois de voltar partirá de novo para se pôr a pedalar o Caminho de Santiago desde França (há quem seja Ironman, há quem goste da borga associada a  ajuntamentos internacionais de fãs da bola, e que há quem ache que pode conciliar as duas coisas no espaço de um mês...).
Assim sendo, este é o Mês da Mãe Solteira Mãe Sozinha! E, para já, não me posso queixar muito. Ao contrário do que esperava, tenho conseguido coordenar os meus horários com os dela sem precisar de me levantar às 6 da manhã nem de prescindir de grande coisa (exceptuando o Optimus Primavera Sound e a noite de Santo António, que, confesso, me custou um booocadinhooo não ir...) e sinto que até ao final da provação a vida vai-me continuar a correr sobre rodas. Senão, vejamos:

- Ela pensa que o pai dela foi viver para trás da televisão verde e guarda todos os abracinhos só para mim.
- Eu sinto-me a Super Mulher e tenho estado tão ocupada que não tenho tempo para pensar em comida, o que só é benéfico, visto a balança ter deixado recente e inexplicavelmente de ser minha amiga.
- Ele vai chegar cheio de saudades nossas e vai-me compensar o "trabalho" nas 137 noites seguintes em que vai ficar responsável por ir se ela acordar.

Só coisas boas, portanto. Mas, mesmo assim, não queria deixar de expressar a minha profunda admiração pelas mães solteiras/divorciadas/sozinhas. É nestas alturas que percebo que vocês são Super Mulheres. A minha vénia. A sério.

12 de junho de 2012

MUSIC BOX #3: Eid Ma Clack Shaw


A mais recente descoberta ou como é que vivi feliz até hoje sem ouvir esta música todos os dias? É que, pode não parecer, mas é a minha cara. Faz-me lembrar o meu primeiro ano em Berlim em que ouvia Madrugada de manhã à noite. Mas não é Madrugada. É o Bill Callahan. Um novo universo para explorar.

11 de junho de 2012

Dos (pais dos) outros miúdos


É minha!
É o que se ouve mais cá em casa desde há coisa de uma ou duas semanas. Sejam as chaves do carro, o comando do som, o boneco dela, o boneco do gato, a comida, no feminino, no masculino, no plural, tudo é "É minha!". A Inês aprendeu há pouco o conceito de posse e nós estamos no processo de lhe fazer entender que, exceptuando o iPhone da mamã, tudo é de todos e é passível de ser emprestado a outros. É claro que ela ainda não percebeu e, se for como a mãe, só o vai fazer lá para os 12 anos…

Este sábado, enquanto lanchávamos com uma amiga numa esplanada, a Inês foi surpreendida por uma miúda entre os 2 e os 3 anos, que se chegou à nossa mesa e pegou no brinquedo da Inês, sem passar cavaco a ninguém. Ora, a Inês, ciosa das suas coisas por natureza, muito mais quando se vê privada delas sem aviso prévio, desata aos gritos "É minha!", muito inquieta na cadeira, a olhar para mim com aqueles olhos de "Vê lá se fazes alguma coisa que ela é maior do que eu!".
Eu, deparada pela primeira vez com uma situação destas, fiz o que qualquer pessoa de bom senso faria e expliquei à Inês que ela podia emprestar o brinquedo à menina e que ela já lho devolvida. Enquanto isso, fiquei à espera que a mãe da alminha aparecesse. 

A mãezinha lá apareceu, sim, mas só depois de a filha dela ter fugido com o brinquedo e de a minha ter desatado a correr atrás dela. Fiquei muito orgulhosa da piquena, não há bullyer que se vá meter com ela na escola, mas levantei-me, só naquela, não fosse a outra dar-lhe com o brinquedo na tola (que tinha um cabo mesmo propício a isso). Esta brincadeira ainda demorou algum tempo. A Inês lá recuperou o brinquedo, mas a outra matulona não desistiu e insistia em tirar-lho. Eu vigiava a coisa de perto e ia acalmando a fofa com a minha voz super meiga e doce, mas do que estava mesmo à espera era que a outra mãezinha se dignasse a deter a filha e a explicar que bullying em tão tenra idade é feio. Mas, não, ali ficou, impávida e serena, a gemer o nome da filha de vez em quando, enquanto ia conversando com a amiga e analisando as unhas das mãos. Estive quase, quase, para lhe perguntar se ela estava à espera que fosse eu a educar a filha dela, se nunca lhe ensinou que não se tiram brinquedos a desconhecidos sem se pedir e muito menos a criaturas mais pequenas do que ela. Foi só quando a minha filha se quis refugiar na casa de banho (é o que eu digo, a miúda safa-se!) e eu a resgatei e pus um ponto final à perseguição, que a mãe da outra decidiu acalmar o monstro.

Ora bem, lembrei-me disto na sequência de uma conversa sobre as fases pelas quais os miúdos passam e da malcriadez dos mesmos (e dos pais dos mesmos). Acredito que, na maior parte dos casos, os pais têm culpas no cartório. Esta mulher precisava, claramente, de duas bofetadas na cara balofa para acordar para a vida e deixar de criar um monstrinho. Em muitos casos, no entanto, acho que é mesmo da personalidade dos miúdos e que os pais não se podem sentir culpados por não terem agido em conformidade na altura certa.
Não foi, contudo, o caso desta mãe. E se a coisa não foi grave nem teve repercussões sérias, a mim irritou-me o suficiente para estar a falar disto dois dias depois. Irritou-me principalmente porque não estava preparada para cenas destas, para lidar com a não educação dos outros ou com a impavidez dos outros pais. Será que, para proteger os nossos filhos dos outros, temos o direito de chamar a atenção dos outros miúdos/pais? Se fosse ao contrário, será que eu gostava? Provavelmente não. Mas não me estou a ver a assistir calmamente à minha filha de 3 anos a perseguir uma bebé de ano e meio para lhe tirar um brinquedo que não é dela. Basicamente roubar à descarada. Não, não me estou a ver a fazer isso. Mas, se algum dia acontecer, por favor, ralhem comigo. E com ela. Mas primeiro comigo.

Nostalgio

Domingo foi dia de limpezas no sótão. Literalmente. Os meus pais, que foram acumulando tralha ao longo de toda a vida, lembraram-se agora de começar a livrar-se do que não precisam. Claro está que me calhou a primeira fatia do bolo. Aproveitando um domingo sem planos, coisa rara nos últimos tempos, lá fomos, mãe e filha, que o pai foi à bola, com tempo e vontade de vasculhar nos baús (vulgo caixas poeirentas). O resultado foi fascinante e deixou-me várias vezes com a lagriminha a querer saltar. As únicas coisas com que me lembrava efectivamente de brincar eram a Barbie e os Pin Y Pons, dos quais continuo uma fã incondicional, mas não dos novos - dos vintage, como lhe chamam "carinhosamente" na ebay. Sinto-me algo ofendida quando leio vintage relativamente a brinquedos da minha infância, mas convenhamos... quer queira, quer não, foi há mais de 20+5 anos... Por isso, cada caixa era uma autêntica caixinha de surpresas. Desde os tachinhos e os electrodomésticos de brincar, às roupinhas para as bonecas que a minha mãe fazia, à cadeirinha de baloiço das bonecas, aos bonecos miniatura do "Era uma vez a vida" ou à mochila do Dartacão que levei no meu primeiro dia de escola, tudo despoletou em mim a mais profunda ternura e nostalgia e, à minha filha, qual barata tonta no meio de tanto brinquedo, arrancava "oohhs" e "aahhs" de cada vez que lhe mostrava qualquer coisa. Afinal, e ao contrário do que pensava em criança, tive brinquedos mais do que suficientes... Mas vão lá dizer isso a um pedaço de gente...
Agora, já está tudo cá em casa, ainda dentro de uma caixa gigante à espera que eu decida que destino lhes dar. Se vão para a Inês, à medida que vai tendo idade para não estragar as coisas assim que pega nelas, se fica tudo mesmo para eu brincar quando ela for dormir. Especialmente os Pin Y Pons. Ou, ao preço a que os ditos estão no mercado, se os vendo e vou de férias para as Maldivas...
Decisão difícil.


6 de junho de 2012

Ídolos

Não sei por que é que esta malta se dá a tanto trabalho. Já alguém ouviu falar do Nuno Norte, do Sérgio Lucas ou mesmo do Filipe Pinto*? Não, pois não. E se eu disser que foram os vencedores das edições passadas? Ora bem.

* E que anda a Sandra Pereira a fazer, a não ser cantar num ou dois anúncios televisivos?

4 de junho de 2012

Regresso ao passado na estação de serviço

Sempre que entro numa casa de banho das estações de serviço das auto-estradas de Portugal, sou imediatamente transportada para a minha mesa de escola da Primária. Há qualquer coisa no gel para as mãos (não quero pensar que é no produto para a sanita) que me lembra umas borrachinhas que se usavam na altura e que só pediam para serem comidas. No entanto, não me lembro se alguma vez as comi. Assim como não me lembro como se chamavam ou onde se compravam, nem se eram borrachas a sério ou daquelas integradas nos lápis. Só sei que volto a ter 5 anos sempre que vou fazer chichi a Alcácer do Sal.

1 de junho de 2012

Presságios de pacotilha

Há duas noites seguidas que sonho com gafanhotos. De uma vez eram gafanhotos translúcidos guardados em caixas (e, como é óbvio, soltos a determinada altura da noite), de outra vez eram gafanhotos simples, daqueles horrorosamente castanhos, que andavam à solta por aí, prontos para atacar.
Ai, ai, isto não augura nada de bom.